O Congresso da Rede Sustentabilidade, realizado neste sábado (13/12) para deliberar sobre mudanças no estatuto, confirmou o cenário de crise aguda na legenda. O que deveria ser um momento de debate democrático transformou-se, segundo relatos da ala ligada à fundadora Marina Silva, em um palco de “violência institucional”, com a aprovação das novas regras conduzida pela executiva nacional — aliada à ex-senadora Heloísa Helena — em um ambiente descrito como viciado e autoritário.
“Jeito Sorrateiro e Velho de Fazer Política”
A deputada estadual Marina Helou (Rede-SP), uma das principais vozes do grupo opositor à atual direção, classificou o processo como lamentável. Em entrevista à Folha de S.Paulo, Helou não poupou críticas à condução das mudanças estatutárias:
“Para mim, que estou na Rede Sustentabilidade desde o seu início, o momento é bem triste e frustrante. Lidar com fraudes e violências institucionais em um ambiente que era para ser de confiança é muito grave. É o jeito mais sorrateiro e velho de se fazer política”, desabafou a parlamentar.
A fala de Helou resume o sentimento de parte histórica da legenda, que vê nas manobras da atual executiva um afastamento radical dos valores que fundaram o partido.
A “Contaminação” da Base de Delegados
A principal contestação recai sobre a legitimidade dos delegados votantes. Denúncias apontam que a base de delegados utilizada neste congresso foi formada a partir do processo de abril, que já se encontra sub judice.
Relatos da oposição indicam fraudes graves na origem dessa composição, incluindo conferências municipais e estaduais com falsificação de assinaturas e até mesmo a presença de nomes de pessoas falecidas em listas de presença. Segundo os críticos, essa “contaminação” na origem viciou todo o processo eleitoral subsequente, garantindo à atual executiva uma maioria construída sobre bases questionadas judicialmente.
Microfones Fechados e a Expulsão de Leandro Carvalho
Durante o evento, o clima de tensão se elevou com relatos de cerceamento da fala. Lideranças nacionais da minoria e vozes divergentes denunciaram que tiveram seus microfones fechados, sendo impedidas de discursar ou contestar as manobras da mesa diretora.
“Não houve espaço para o contraditório. O processo foi desenhado para não permitir a fala de quem pensa diferente, com práticas autoritárias que ferem a democracia interna”, relatam participantes do grupo de oposição.
Um episódio emblemático do clima hostil foi a expulsão do filiado Leandro Carvalho. Segundo testemunhas, Leandro, que teve seu direito de delegado retirado desde os processos contestados de abril, foi retirado da sala à força ao tentar participar, tendo sido relegado à condição de observador — uma consequência direta da cassação de delegados considerada arbitrária pelo grupo de Marina.
Análise sob a Ótica da Sustentabilidade Política
O desfecho do congresso da Rede Sustentabilidade fere de morte o princípio da Sustentabilidade Política, um dos oito eixos fundadores do próprio partido. A sustentabilidade política não se resume à sobrevivência de uma sigla, mas à saúde de seus processos democráticos, à ética nas relações de poder e à capacidade de incluir a diversidade.
É uma ironia trágica que o partido nascido para “renovar a política” seja agora acusado, por suas próprias fundadoras, de reproduzir as práticas mais arcaicas do “velho sistema”: manipulação de atas, uso de “delegados fantasmas” e o silenciamento literal da dissidência. Quando um partido sustentabilista atropela seus próprios ritos democráticos e valida decisões baseadas em processos suspeitos de fraude, ele se torna politicamente insustentável. A legitimidade de uma liderança advém do respeito às regras do jogo e ao contraditório; sem isso, resta apenas o exercício bruto do poder, o que corrói o capital ético da instituição e afasta a sociedade da política.


